João Guimarães Rosa nasceu em Cordisburgo

   João Guimarães Rosa nasceu em Cordisburgo, Minas Gerais, em 1908 e morreu no Rio de Janeiro, em 1967, três dias após ter tomado posse na Academia Brasileira de Letras. Filho da classe média, Rosa fez seus primeiros estudos na cidade natal , aprendeu as primeiras letras com Mestre Candinho, em Cordisburgo, e Francês com Frei Esteves, franciscano. Foi sempre aluno excelente, surpreendendo os professores pela inteligência e aplicação. Desde cedo mostrou inclinação para línguas, e, aos seis anos, lia o primeiro livro em francês "Les Femmes qui Aiment".

   Em 1918 o avô leva-o para Belo Horizonte, matriculando-o no primeiro ano colegial do colégio Arnaldo, onde estudaram também Carlos Drummond de Andrade e Gustavo Capanema. E ele entrega-se aos livros, com entusiasmo; em breve, vamos encontrá-lo a pedir licença para freqüentar a biblioteca da cidade. Embora o seu grande amor ao estudo, não desprezava os esportes, principalmente futebol. Mas foram as línguas a sua principal paixão: estudava-as com afinco, sem se descuidar das respectivas gramáticas. Outra matéria de sua predileção foi a História Natural. Dos dez aos catorze anos colecionou insetos, borboletas; amava os animais, aprendeu a conhecê-los intimamente e a sua obra mostra bem os profundos conhecimentos que tem da matéria. Quando ia a Cordisburgo, pelas férias, explorava os matos, à procura de cobras. Lia bastante, tendo conhecido Euclides da Cunha ainda nos bancos escolares. Entretanto, o estilo árido, difícil para a sua idade, fazia-o pular páginas, amortecia-lhe o interesse. Só muito mais tarde (quando "Sagarana" já se encontrava em provas) é que o releu devidamente. Terminados os preparatórios, Guimarães Rosa matriculou-se na Faculdade de Medicina de Minas gerais. Durante o curso médico conheceu no Hospital Santa Casa de Belo Horizonte o Dr. Juscelino Kubitschek de Oliveira de quem se tornou bom amigo. A propósito dele, dizia Guimarães Rosa ao seu amigo, o romancista e professor Geraldo França de Lima: "Jamais uma pessoa me tratou tão bem." Nessa época, premido por necessidade financeira, escreveu contos, publicados na revista O Cruzeiro. Concorreu quatro vezes, e em todas foi premiado com cem mil-réis. Mas escrevia friamente, sem paixão, preso a moldes alheios, como confessou. Na verdade, eram os cem mil-réis do prêmio...

   Depois de formado, foi Guimarães Rosa exercer a profissão em Itaguara, município de Itaúna, onde permaneceu por dois anos. A razão da escolha é que lhe haviam dito não existir médico por aquelas bandas. E, na verdade, era excelente iniciar a profissão sem concorrência... Aproveitava todos os momentos disponíveis para estudar (mesmo durante as viagens a cavalo), e de tal modo se familiarizou com a profissão que era capaz de dar o diagnóstico apenas pela fisionomia do doente. Cobrava as visitas que fazia, como médico, pelas distâncias que, a cavalo, tinha que percorrer. Nem podia ser de outra forma, porque, quando chegava ao local, o dono da casa, a fim de baratear a consulta, aproveita-lhe a presença para uma revisão geral na saúde da família. Médico dedicado, acabou por se tornar respeitadíssimo naquelas regiões. Perder um doente era, para ele, particularmente, algo trágico. E uma vez em que isso aconteceu, ficou aflitíssimo, sem saber que resolução tomar. O padre já esperava ao lado do morto, para encomendar-lhe o corpo, e Rosa ainda lhe aplicava injeções sobre injeções, como se pretendesse ressuscitá-lo. Foi uma noite de agonia. Em casa, mais tarde, o futuro escritor fechou-se no quarto, sem querer jantar, imaginando represálias por parte dos parentes e amigos do morto, quem sabe um linchamento... Soube, depois, que a preocupação era inteiramente infundada, e que todos haviam reconhecido que ele fizera o impossível. Dois anos mais tarde retornou Guimarães Rosa a Belo Horizonte. Por ocasião da Revolução Constitucionalista de 1932, atua como médico voluntário da Força Pública, indo servir no setor do Túnel. Encontrou-se de novo com o amigo Doutor Juscelino, e na pequena localidade estreitaram as relações de amizade. (Trinta e cinco anos depois, ao tomar posse na Academia, quando recebia o abraço do ex-presidente da República que fizera parte da mesa -, Rosa assim lhe responde ao cumprimento: - "Com a mão na pala, meu coronel.") Posteriormente Guimarães Rosa entra no Quadro da Força Pública, por concurso.

   Em 1934, vamos encontrá-lo em Barbacena, como oficial-médico do 9o. Batalhão de Infantaria. Aí a vida calma dá-lhe oportunidade para se entregar melhor aos seus livros. Mesmo sem se descuidar da medicina, retorna ao estudo das línguas. "Estudava as línguas para não me afogar completamente na vida do interior"- confessará depois. E através de um russo branco que se encontrava meio perdido por aquelas bandas, como soldado da polícia militar de Minas, pôde confrontar pela primeira vez a sua pronúncia. Depois, por intermédio de cadetes e de antigos oficiais do exército czarista, aparecidos em Barbacena como componentes do Coro dos Cossacos do Juban e do Don, pôde aperfeiçoar seus estudos. Foi a essa altura que um amigo, impressionado com os conhecimentos que tinha Guimarães Rosa das línguas estrangeiras, deu-lhe a sugestão: - Se você gosta tanto de estudar línguas, por que não faz concurso para o Itamarati? Rosa pensou no caso, e acabou por aceitar o conselho. Adquiriu livros, estudou muito, e em 1934 veio para o Rio, enfrentar o concurso para o Ministério do Exterior, onde detém o segundo lugar. Durante todo esse tempo, manteve suas ligações com a literatura. Além dos contos, escrevia versos, chegando a organizar uma seleção deles num volume Magma com o qual concorreu em 1936 ao prêmio de poesia da Academia Brasileira. O livro sai vitorioso, sendo o parecer do relator o poeta Guilherme de Almeida altamente lisonjeiro. Apesar disso, tal obra não foi publicada até hoje. Em 1937, a saudade da terra levou Guimarães Rosa a escrever os contos de "Sagarana", onde, com estilo vigoroso, apresenta a paisagem mineira em toda a sua beleza selvagem, a vida das fazendas, dos vaqueiros e dos criadores de gado - estórias de gente simples vividas ou imaginadas no mundo em que passara a infância e a mocidade. Transpunha também, para o livro, a linguagem rica e pitoresca daquela gente, registrando regionalismos, muitos deles ainda não utilizados em literatura. Levou sete meses para escrever o livro "sete meses de exaltação, de deslumbramento"- declarará. Em dezembro de 1937, resolve concorrer com o volume ao Prêmio Humberto de Campos, instituído então pela Livraria José Olímpio. Queria ganhar o concurso, naturalmente; mas desejava, sobretudo, saber do valor do seu trabalho. Não conhecia ninguém da área literária, e a opinião da comissão julgadora (constituída por Graciliano Ramos, Marques Rebelo, Prudente de Morais Neto, Dias da Costa e Pelegrino Júnior) era um excelente meio de tomar o próprio pulso. Remeteu à Comissão os originais que então se intitulavam apenas Contos para disputar o prêmio com outros 57 concorrentes. Saiu vencido por três votos a dois. No mundo literário ninguém sabia quem era o autor que chegara à final do concurso: era o desconhecido Viator. Um dos juizes, o grande e saudoso Graciliano Ramos, a propósito do assunto escreveu artigo divulgado na imprensa do país em 1946 "Conversa de bastidores onde dá de público esclarecimentos (incluído em Linhas Tortas, livro póstumo de Graciliano). O livro "Sagarana" não foi o que se submeteu ao concurso sob o simples título de Contos. "Sagarana" é a depuração deste, escoimado, reduzido (de quinhentas e tantas páginas às três centenas de hoje), refeito, portanto, segundo o critério rigoroso do Autor. No depoimento de Graciliano Ramos está a história do Prêmio Humberto de Campos de 1938, e importa transcrevê-lo na íntegra é o que se faz logo após este perfil biobibliográfico.

   Em 1938, nomeado cônsul-adjunto em Hamburgo, o escritor segue para a Europa, onde recebe a notícia de que a obra premiada fora Maria Perigosa, coletânea de contos de Luís Jardim (de quem, aliás, o escritor se tornaria, mais tarde, amigo e admirador). Em 1942, quando o Brasil rompe com a Alemanha, Guimarães Rosa é internado, com Cícero Dias, Cyro de Freitas Vale e outros, em Baden-Baden. Aproxima-se de Cícero Dias, com quem faz amizade, e acaba por mostrar-lhe os originais de "Sagarana". O pintor gosta do livro, e anima-o a publicá-lo. Libertado mais tarde com os outros, em troca de diplomatas alemães, o escritor retorna ao Brasil. Depois de rápida passagem pelo Rio, segue para Bogotá, como secretário de Embaixada, de onde volta em 1944. Um ano depois, retoma os originais de "Sagarana", e, em cinco meses de trabalho contínuo, refaz inteiramente o livro, suprimindo duas histórias. O volume é publicado em 1946 pela Editora Universal, com sucesso ruidoso, esgotando-se, no mesmo ano, duas edições. Recebe o prêmio da Sociedade Felipe d'Oliveira e é aclamado como uma das mais importantes obras de ficção aparecidas no Brasil contemporâneo.

   Em 1956, publica "Corpo de Baile" (novelas, hoje divididas nos livros Manuelzão e Miguelin, No urubuquaquá, no Pinhém e Noites do Sertão) e sai nas livrarias seu primeiro e único romance: "Grande Sertão: Veredas". Em 1963 é eleito por unanimidade para a Academia Brasileira; só tomará posse em 1967. Três dias depois, um enfarto agudo o levou embora.

 

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